Sentença de Julgado de Paz | |
| Processo: | 37/2012-JP |
| Relator: | PERPÉTUA PEREIRA |
| Descritores: | DIREITO DE PROPRIEDADE - USUCAPIÃO - ÁGUAS |
| Data da sentença: | 12/28/2012 |
| Julgado de Paz de : | TERRAS DE BOURO |
| Decisão Texto Integral: | Sentença I - Identificação das Partes Demandante: A e B, residentes no concelho de Terras de Bouro; C e D, residentes no concelho de Terras de Bouro; E, cabeça de casal da herança aberta por óbito de x, residente no concelho de Terras de Bouro; F, residente no concelho de Terras de Bouro; G e H, residentes no concelho de Terras de Bouro; I e J, residentes no concelho de Terras de Bouro. Demandado: L, residente no concelho de Terras de Bouro. II - Objeto do Litígio Os Demandantes vieram propor contra o Demandado a presente ação declarativa, enquadrada na alínea d) do n.º 1 do art.º 9º da Lei n.º 78/2001 de 13 de Julho, pedindo a condenação deste a reconhecer a propriedade dos Demandantes relativamente aos prédios identificados no requerimento inicial, a retirar o cano e a repor a situação anterior à colocação do tubo de modo a permitir a livre circulação de água dos consortes ou, em alternativa, que seja a Demandada condenada no pagamento do montante de €500,00 (quinhentos euros) por danos patrimoniais e as custas do processo. Alegam para tanto e em síntese que, donos e legítimos proprietários dos prédios identificados no requerimento inicial, vêm usufruindo há mais de setenta anos a favor dos seus prédios, de água de rega proveniente do prédio de … onde brota uma nascente, cuja água é atualmente conduzida por cano para ser posteriormente represada em poças e depois segue para cada um dos prédios dos consortes, entre estes os Demandantes. Mais alegam que no passado mês de Março, em consequência de um incêndio que abrangeu, entre outras, as suas propriedades, depararam-se com um cano a sair da boca da nascente até à propriedade do Demandado que também identificam no requerimento inicial; a referida encanação lesa os direitos dos Demandantes uma vez que diminui o caudal que segue para as poças e posteriormente para os prédios dos Demandantes, peticionando, assim, a retirada do referido cano. Juntaram documentos com o requerimento inicial e na fase da audiência de julgamento. A citação foi efectuada regularmente. As partes aderiram à fase da Mediação, da qual não resultou acordo. Pelo Demandado foi apresentada contestação. Alega desconhecer a propriedade invocada pelos Demandantes e defende que a nascente referida no requerimento inicial se localiza no seu prédio; alega que aceitou a partilha verbal feita por seu pai no ano de ..., tendo-lhe sido adjudicado o prédio composto por bouça onde está localizada a nascente e pela mesma ocasião, a Câmara Municipal começou um projeto de aproveitamento de águas/regadios e que nesta altura já se encontrava colocado junto da nascente umtubo/cano de ¼ de polegada, colocado pelo Demandado, tubo este que foi substituído no Verão de 2010 por um com cerca de ½ polegada; mais defende que nunca lesou com tais factos o direito de quem quer que fosse e não admite que o caudal de água do ribeiro tenha diminuído até porque os Demandantes só descobriram o cano após um incêndio quando procederam à recolocação do tubo, que também ardeu, e que conduz a água até às poças e depois para a propriedade dos consortes. Concluiu pela improcedência da ação e pedido, devendo a decisão reconhecer que o Demandado tem água para consumo doméstico proveniente do seu prédio rústico. O Julgado de Paz é competente em razão da matéria, do objecto, do território e do valor. O processo não enferma de nulidades que o invalidem na totalidade. As partes gozam de personalidade e capacidade judiciárias e são legítimas. Foi realizada audiência de julgamento de acordo com o formalismo legal e, conforme requerido pelas partes, no local da questão. Já na fase da audiência, por requerimento de fls. 119 e 124 e ss, os Demandantes procederam ao aperfeiçoamento do requerimento inicial e considerando que pediram a condenação numa prestação alternativa, optaram pelo pedido de condenação do Demandado a retirar o cano e a repor a situação anterior à colocação do tubo de modo a permitir a livre circulação de água. Assim, e tendo os Demandantes exercido o direito de escolha da prestação, conhecerá apenas o tribunal sobre o referido pedido (cfr. artigos 468º e 661º do Código de Processo Civil). III- FUNDAMENTAÇÃO FÁCTICA Da prova carreada para os autos e com relevância para a discussão da causa, resultaram provados os seguintes factos: a) Os Demandantes A e B são donos e legítimos proprietários dos prédios rústicos sitos no concelho de Terras de Bouro, inscritos na matriz sob os números x e x da freguesia de Souto, desde o ano de ...; b) Os Demandantes C e D, são donos e legítimos proprietários dos prédios rústicos sitos na …, inscritos na matriz sob os números x e x da freguesia de Souto, desde o ano de ..., ou seja, há mais de 40 anos; c) A Demandante E é cabeça de casal da herança, dona e legítima proprietária dos prédios rústicos sitos na …, inscritos na matriz sob os números x e x da freguesia de Souto, desde o ano de ...; d) A Demandante F é dona e legítima proprietária do prédio rústico sito na …, inscritos na matriz sob o número x do concelho de Terras de Bouro, desde o ano de ...; e) Os Demandantes G e H, são donos e legítimos proprietários do prédio rústico sito na …, inscrito na matriz sob o número x do concelho de Terras de Bouro desde o ano de ...; f) Os Demandantes I e J, são donos e legítimos proprietários do prédio rústico denominado “…” sito na …, inscrito na matriz sob o número x do concelho de Terras de Bouro desde o ano de ...; g) Os Demandantes cuidam dos respectivos prédios, deles retirando utilidades, vigiando-os e limpando-os, roçando matos e pagando os respectivos impostos, desde tais datas, respectivamente, de boa-fé, ignorando lesarem direito alheio, pacificamente, sem violência, contínua e publicamente à vista e com o conhecimento de toda a gente e sem oposição de ninguém, convictos de que os prédios lhes pertencem. h) O Demandado é dono e legítimo proprietário do prédio rústico sito no lugar da …, inscrito na matriz sob o número x, denominado “…”, descrito na Conservatória do Registo Predial de Terras de Bouro sob o número x, do Concelho de Terras de Bouro, i) A confrontar de norte com Y, do nascente com W, de sul com caminho público e de poente com Z, composto por eucaliptal e mato e com a área de 1400 m2. j) Prédio este que lhe adveio à posse pelo instituto da usucapião. k) Os Demandantes, alguns deles há mais de 40 anos vêm usufruindo para os seus referidos prédios, de água para rega, proveniente do prédio de …, inscrito na matriz sob o n.º x do concelho de Terras de Bouro. l) Neste prédio brota uma nascente cuja água era conduzida a céu aberto até cerca do ano de ... e, a partir de tal altura, através de um cano é posteriormente represada em poças, após o que, m) Cada um dos consortes, entre eles os Demandantes, em dias e horas e a que tem direito, a derivam para os seus terrenos. n) No passado mês de Março e em consequência de um incêndio que abrangeu as referidas propriedades compostas essencialmente por bouças, o) Os Demandantes depararam-se com um cano colocado na boca da nascente até à propriedade do Demandado. p) A referida encanação diminui o caudal que segue para as ditas poças e consequentemente para a propriedade dos Demandantes. q) Antes de pertencer ao Demandado, a T pertencia a seus pais … e … (…), cujas partilhas foram feitas de forma verbal. r) Do terreno do Demandado foi retirado um eucalipto que serviu para a construção do telhado da casa da filha daqueles, de seu nome …, irmã do Demandado. s) No ano de ..., o Demandado aceitou a adjudicação do prédio rústico inscrito sob o artigo x. t) Assim, há mais de vinte anos que o Demandado utiliza e frui o referido prédio, conservando-o, limpando-o, roçando matos, plantando e cortando árvores, gozando as respectivas vantagens e suportando os inerentes encargos, à vista de toda a gente e sem oposição de quem quer que seja, u) Sempre de boa-fé e na plena convicção de exercer um direito próprio. v) Cerca da mesma altura, a Câmara Municipal de Terras de Bouro elaborou um projeto de aproveitamento de águas/regadios, financiada pelo Ministério da Agricultura denominada Q e R, para melhor aproveitamento da água que antes corria a céu aberto. w) Esta obra foi adjudicada ao Demandante …. x) Nesta altura, foi colocada uma caixa de captação de águas da nascente com cano na Q, para posteriormente seguir para os consortes. y) Em altura posterior a esta obra, em data que não se conseguiu apurar, o Demandado colocou um cano de ¼ de polegada, a cerca de alguns centímetros da boca da nascente. z) No Verão de 2010, o Demandado substituiu este cano por outro de 1/2 polegada pois o cano anterior entupia com muita facilidade. aa) No Verão de 2011, foi alterado o sistema de redistribuição de água de consortes da família do Demandado e seus seis tios. bb) até então existia um poço de sete consortes, todos irmãos, com água encanada desde a U até ao poço que servia os sete irmãos. cc) A água que caía no poço seguia de forma direta para cada um dos irmãos, isto é, do poço seguia um cano que distribuía por vários ramos que iam alimentar as diferentes casas. dd) Quando o Demandado abria a água na sua casa, os outros familiares ficavam sem água. ee) No Verão de 2011 foram, assim, construídos sete poços englobados num poço grande, com ligação, cada um deles, para cada casa. ff) Estando os poços cheios, o remanescente é conduzido por um tubo vulgarmente designado de “V” para um tanque de um dos consortes. gg) Em Março passado, a bouça do Demandado ardeu, juntamente com muitas outras, e os Demandantes, ao procederem à recolocação do já referido tubo para aproveitamento de águas, descobriram o cano do Demandado. hh) O Demandado habita em França. Não resultou provado que: ii) Em ato de repulsa, o Demandado tenha partido a canalização colocada na levada pelos consortes. jj) A nascente se situa na propriedade do Demandado. kk) Até por volta do ano de ..., as águas brotavam de vários lados em volta de um eucalipto bastante grosso e que do espaço onde este estava implantado, após ser cortado, apareceu uma nascente. ll) Até que a obra dos regadios principiasse e acabasse passaram cerca de três anos. mm) Quando esta obra foi feita e colocada a caixa de captação junto à nascente, já lá estava o tubo de ¼ de polegada colocado pelo Demandado. nn) Por razões de cariz familiar, o Demandado não quis dar conhecimento deste tubo ao tio com quem não tinha boas relações de família. oo) Após o incêndio de Março de ..., os Demandantes retiraram o tubo do Demandado e colocaram o seu tubo junto da nascente, terminando o trabalho com betão. pp) Os Demandantes chamaram militares da GNR ao local para aferirem da natureza pública ou privada das águas e estes concluíram que se trata de uma nascente de cariz privado. qq) O Demandado enviou uma carta registada a alguns consortes para informar que sempre teve o seu tubo e irá manter a situação original. rr) A água cresce no tanque da família do Demandado em virtude da alteração do sistema de captação e distribuição. Motivação fática: A convicção probatória do Julgado ficou a dever-se ao conjunto da prova produzida, nomeadamente da conjugação dos documentos constantes dos autos (fls. 12 a 28, 113 a 115, 123, 130 a 157, 179 e 180), da ida ao local (onde se ouviram todas as testemunhas) e do depoimento testemunhal prestado em sede de audiência, em função das razões de ciência, das certezas e incertezas decorrentes dos depoimentos, da incompatibilidade lógica entre factos alegados e provados, à luz das regras da experiência e do mais elementar senso comum. Os factos constantes das alíneas h), j), n) e o) foram admitidos por acordo nos termos do disposto no artigo 490º n.º 2 do C.P.C. As testemunhas declararam, em suma: Tanto as nascentes como as fontes constituem partes integrantes do solo onde se acham implantadas. Assim, a utilização das respectivas águas decorre do prolongamento natural do domínio do prédio sobre todos os seus elementos componentes. Transpostos os limites do prédio, perdem-se os direitos do primitivo dono, dado que só na medida e no momento em que a água faz parte integrante do prédio onde exista a fonte ou nascente poderá o dono fazer o uso e livre disposição que bem entender, na plenitude do seu direito, salvas as limitações que a lei determina (José Cândido de Pinho, As Águas no Código Civil, pág. 60 e segs.). O uso público a que uma água particular esteja afecta para a satisfação de necessidades primárias da vida não altera a natureza privada dessa fonte ou nascente e da água. Da prova produzida o tribunal ficou convencido que já os ante proprietários dos prédios que agora são propriedade dos Demandantes beneficiavam da água da Q uma vez que a testemunha …(cujo depoimento o tribunal considerou isento e credível) declarou que tendo já herdado o seu terreno (onde a nascente se situa, inscrito na matriz sob o artigo x) também não pôde dispor da água como pretendia uma vez que era já destinada a consumo dos prédios de vários habitantes da freguesia ... do concelho de Terras de Bouro. |