PP019 Analítico de Periódico P90_33 | |
BAPTISTA, Joana Vinculação e exposição precoce a adversidade ambiental / Joana Baptista CEJ - Revista do Centro de Estudos Judiciários, Coimbra, n.33 (I S.2021), p.195-212 Estante n.º 19 PROTEÇÃO À CRIANÇA, ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL, DIREITOS DA CRIANÇA A qualidade dos cuidados relacionais durante a infância contribui para a construção da arquitetura do cérebro e influencia a adaptação desenvolvimental subsequente, existindo variabilidade na qualidade das relações de vinculação que a criança estabelece com os seus prestadores de cuidados. Contributos clínicos e da investigação permitiram a identificação de 3 padrões de vinculação - i.e., um padrão seguro (ou B) e dois padrões inseguros (inseguro-evitante ou A e inseguro-ambivalente/resistente ou C). Investigação adicional permitiu a identificação, mais tarde, de um novo grupo—i. e., Grupo D ou desorganizado. A insegurança da vinculação é descrita como uma estratégia menos ótima, comparativamente com a segurança da vinculação, ao exigir esforços adicionais de regulação emocional por parte da criança; no entanto, tanto a segurança como a insegurança da vinculação representam estratégias consistentes e previsíveis na interação entre a criança e a figura de vinculação, e, por isso, são definidas como estratégias organizadas. A desorganização da vinculação representa a incapacidade da criança para organizar uma estratégia consistente e coerente face à ativação do sistema de vinculação, ou seja, traduz um colapso das estratégias organizadas, quer de tipo seguro quer de tipo inseguro, e a desorganização da vinculação atua como um fator de risco para a emergência de problemas de saúde mental. A desorganização da vinculação é mais comum em crianças expostas precocemente a adversidade ambiental, designadamente em crianças com histórias de institucionalização na infância; por outro lado, a desorganização da vinculação está associada a comportamentos parentais disruptivos, podendo ser explicada, no entanto, por outros fatores, incluindo pela interação entre fatores biológicos e ambientais, e, por último, a desorganização da vinculação não serve de indicador da exposição a maus-tratos na família. A teoria da vinculação oferece um quadro conceptual útil para a avaliação e para a intervenção com crianças expostas precocemente a adversidade ambiental e seus prestadores de cuidados, sendo que as intervenções baseadas na vinculação mostram-se eficazes na promoção da responsividade sensível parental e na diminuição da desorganização da vinculação, incluindo em famílias potencialmente maltratantes. |