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| ALHO, Laura Catarina e Silva Olfato e crime [Documento electrónico] : implicações do reconhecimento de odores corporais na psicologia forense / Laura Catarina e Silva Alho.- Aveiro : [s.n.], 2016.- 1 CD-ROM ; 12 cm Dissertação apresentada à Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Contabilidade no ramo de auditoria, realizada sob a orientação científica de Helena Inácio. Resumo inserto na publicação. Ficheiro de 4,51 MB em formato PDF (225 p.). TESTEMUNHA, PSICOLOGIA DO TESTEMUNHO, TESE A resolução de crimes culmina muitas vezes com a identificação de um ofensor por parte da vítima. No entanto, tem sido verificado que as testemunhas oculares e auriculares são altamente falíveis, o que se tem revelado um tema de preocupação e de discussão entre investigadores forenses e entidades policiais. Uma vez que as investigações têm incidido maioritariamente nos sentidos da visão e da audição, propusemos uma nova linha de investigação que pretende estudar a possibilidade de o olfato também poder ser considerado na resolução de crimes. Em determinadas condições, as observações feitas pelas vítimas acerca do odor do ofensor podem desempenhar um papel determinante na fase investigativa do processo. A presente tese propõe como linha de investigação o “testemunho olfativo”, pretendendo perceber (i) a capacidade dos humanos na identificação de odores corporais de estranhos em alinhamento (um paradigma semelhante aos testemunhos ocular e auricular), (ii) a memória olfativa em contexto emocional e em contexto neutro, (iii) os efeitos de algumas variáveis (de sistema e estimadoras) na identificação do odor-alvo em alinhamento. Todos os estudos apresentam, de uma forma geral, a mesma metodologia: exposição a vídeos reais (de crime ou neutros) e a apresentação simultânea de um odor corporal que é informado ser do elemento do sexo masculino que se vê no vídeo. Após uma pausa de 15 minutos, é apresentado um alinhamento com odores onde o odor-alvo está ou não presente. A metodologia foi ajustada especificamente para cada estudo. O Estudo 1 explorou o paradigma do testemunho ocular num contexto emocional (crime) e num contexto neutro (n = 80), com uma tarefa de reconhecimento forçada (i.e., o odor-alvo estava sempre presente). Os resultados demonstraram que em ambas as condições, o reconhecimento foi realizado acima do acaso, tendo sido verificado um desempenho estatisticamente significativo entre a condição crime (68%), comparativamente com a condição neutra (45%) (p ≤ .05). O Estudo 2 testou os efeitos do intervalo de retenção apenas na condição emocional (crime). Foi utilizado um intervalo de retenção curto (IRC, 15 minutos) e um intervalo de retenção longo (IRL, 1 semana). Os resultados mostraram um decréscimo na identificação na condição IRL. No IRC, os participantes foram capazes de identificar o odor-alvo acima do acaso (p ≤ .05). Ao fim de uma semana, a taxa de acerto não se diferenciou da probabilidade do acaso (p > .05). O Estudo 3 explorou os efeitos do tamanho do alinhamento na condição emocional. Foram apresentados alinhamentos de 3, 5 e 8 odores corporais. Os resultados revelaram que nas três condições o reconhecimento foi feito acima do acaso (p ≤ .05). No entanto, à medida que o alinhamento aumenta, a proporção de respostas corretas diminui, sugerindo que em alinhamentos pequenos o reconhecimento é mais eficaz. O Estudo 4 explorou o tipo de aprendizagem (acidental vs. intencional) na condição emocional (crime), com instruções diferenciadas para ambas. Os resultados demostraram a inexistência de diferenças significativas entre as condições, propondo que o reconhecimento olfativo não sofre interferências com as instruções e com o tipo de aprendizagem relativa ao odor-alvo no momento da codificação. O reconhecimento em ambas foi significativamente acima do acaso (p ≤ .05). O Estudo 5 manipulou a presença e a ausência do odor-alvo em alinhamentos de 5 odores corporais, na condição crime e na condição neutra. Os resultados revelaram que a memória olfativa parece funcionar melhor em alinhamentos onde o odor-alvo está presente. Uma vez mais, o reconhecimento em ambas as condições foi acima do acaso (p ≤ .05), verificando-se um desempenho superior na condição crime, o que corrobora e replica os resultados do Estudo 1. Finalmente, o Estudo 6 explorou o tipo de alinhamento (simultâneo vs. sequencial), manipulando a presença e a ausência do odor-alvo, em ambas as condições (crime e neutra). Foi possível identificar o odor-alvo, acima do acaso (p ≤ .05) nos dois tipos de alinhamento e o desempenho foi superior nos alinhamentos que têm o odor-alvo presente. Foram realizadas análises agregadas de todos os estudos desenvolvidos de forma a perceber o efeito de variáveis como o sexo dos participantes, a posição serial do odor-alvo em alinhamento, o efeito das emoções negativas (stresse e ansiedade), e o efeito da confiança reportada na identificação olfativa. Os resultados não revelaram diferenças entre sexos no reconhecimento de odores para nenhuma condição. No que diz respeito à posição serial, assiste-se a um efeito de primazia nos alinhamentos simultâneos, mas não se assiste a nenhum efeito nos alinhamentos sequenciais, provavelmente devido ao tipo de instruções e ao tipo de julgamento diferenciado inerentes a cada tipo de alinhamento. Relativamente aos níveis subjetivos de stresse e de ansiedade, os participantes da condição emocional reportaram níveis mais elevados em todas as medidas aplicadas antes e depois da tarefa, comparativamente com os participantes da condição neutra. No entanto, apesar das diferenças, a média dos níveis reportados é baixa, pelo que não se pode inferir que os participantes experienciaram emoções negativas fortes que pudessem afetar o reconhecimento. Finalmente, os níveis de confiança dos participantes da condição crime foram superiores aos da condição neutra. No entanto, não existe uma correlação significativa entre os níveis de confiança e a precisão das respostas. Pela primeira vez na literatura científica, mostrou-se que o reconhecimento de indivíduos através do odor corporal é possível (e significativamente acima do acaso) em alinhamentos com cinco odores corporais, onde o odor-alvo está presente. O ser humano é capaz de fazer a identificação quer numa condição emocional, quer numa condição neutra. No entanto, o reconhecimento na condição emocional parece ser potenciado, sugerindo que a emoção negativa associada a esse evento pode intensificar a recordação do odor em tarefas posteriores de reconhecimento. No entanto, apesar destes resultados interessantes e promissores, importa realçar que é necessária cautela na transposição para o contexto real. Para que o testemunho olfativo seja aplicado no terreno, ainda há um longo percurso pela frente. Ainda assim, este projeto de investigação demonstrou que o olfato pode ser uma ferramenta útil e efetiva em contextos forenses e que merece ser explorado em investigações futuras. |