Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa
Processo:
994/07.5TYLSB.L1-8
Relator: CAETANO DUARTE
Descritores: MARCAS
IMITAÇÃO
Nº do Documento: RL
Data do Acordão: 02/17/2011
Votação: UNANIMIDADE
Texto Integral: S
Meio Processual: APELAÇÃO
Decisão: IMPROCEDENTE
Sumário: I -- A utili­zação desta designação – “Torre da Lapela” apenas poderia prejudicar a requerente do registo da marca uma vez que a expressão “de Lapela” não podia ser considerada de uso exclusivo e a finali­dade da marca é precisamente individualizar e ser exclusiva.
II- O bónus pater familiae, e é por esta bitola que temos de aferir a possibilidade de semelhança, não consegue encontrar semelhança entre as duas marcas. Uma é constituída por uma palavra com 6 letras e a outra é constituída por 2 palavras com 5 e 6 letras respectivamente unidas por um “de”. Olhando para as marcas dir-se-ia que é impossível confundi-las.
(Sumário do Relator)
Decisão Texto Parcial:
Decisão Texto Integral: Acordam no Tribunal da Relação de Lisboa

M… S.A. interpôs recurso do despacho do Instituto Nacional de Proprie­dade Industrial que concedeu o registo da marca “Torre de Lapela” a favor da Adega Cooperativa…. Alegou que é titular da designação “Torres” e que o registo devia ter sido recusado por susceptibilidade de confusão entre as duas marcas.
A Adega Cooperativa ... pugnou pela manutenção do despa­cho do INPI.
Veio a ser proferida a sentença de fls. 99 a 103 que negou provimento ao recurso e manteve o despacho recorrido. Desta sentença vem o pre­sente recurso de apelação interposto pela Recorrente.

A apelante alega, em resumo:
- Os direitos privativos de propriedade industrial representam essencialmente direitos de exclusivo na medida em que conferem aos seus titulares o exclu­sivo de exploração económica dos bens imateriais objecto daqueles;
- Em primeiro lugar, o titular da marca pode usá-la para os produtos ou servi­ços para os quais se encontra registada bem como os direitos de ceder, onerar ou licenciar a mesma;
- Em segundo lugar, o titular pode impedir terceiros de usar a marca registada em produtos ou serviços idênticos ou afins;
- Este poder de proibir visa evitar o risco de associação que se verifica quando o consumidor estabelece erradamente uma relação de natureza económica entre as empresas titulares das marcas em confronto;
- A marca é um sinal susceptível de representação gráfica adequado a distin­guir os produtos ou serviços de uma empresa não podendo ser constituída por sinais genéricos, descritivos ou usuais;
- Entre os sinais descritivos encontram-se os nomes geográficos como “Lapela” que se reporta a uma localização geográfica;
- A marca não pode ser idêntica ou semelhante a outra anteriormente registada para impedir a indução em erro ou confusão;
- Deve ser recusado todo o registo de marcas que contenham em todos ou alguns dos seus elementos a reprodução ou imitação no todo ou em parte de marca anteriormente registada;
- A concorrência desleal tem 3 requisitos: prática de um acto de concorrência, esse acto ser contrário às normas e usos honestos, e o acto pode praticar-se em qualquer ramo de actividade económica;
- Para que haja concorrência desleal é necessário que a confusão actue no espí­rito do público de forma a levá-lo a trocar um determinado agente económico por outro ou os seus produtos/serviços por outros;
- No caso dos autos não devia ter sido autorizado o uso da expressão “Lapela”;
- Fica-nos como preponderante a expressão “Torre de” que se confundo facil­mente com a marca “Torres”.
A recorrida contralegou dizendo:
- A marca pode ser distintiva se não for exclusivamente descritiva e a marca em questão é Torre de Lapela” e não apenas “Lapela”, sendo certo que não existe qualquer lugar geográfico denominado “Torre de Lapela”;
- Não se regista qualquer semelhança entre as duas marcas em confronto.
Corridos os vistos, cumpre decidir.

Foram considerados provados os seguintes factos:
- Por despacho de 4 de Abril de 2007, o senhor director da Direcção de Marcas do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, por subdelegação de competências do Conselho de Administração do mesmo Instituto, deferiu o pedido de registo da marca nacional n.º ... “TORRE DE LAPELA” ao requerente – Adega Cooperativa …;
- A recorrente é titular da marca internacional n.º ... “TORRES” e marcas comunitárias n.º ..., ... e ... “TORRES” para assinalar produtos da classe 33: bebidas alcoólicas, excepto cervejas;
- A marca registanda “TORRE DE LAPELA” visa assinalar os produtos da classe 33: bebidas alcoólicas (com excepção de cervejas);
- Ambas as marcas são impressas em letra de imprensa maiúsculas regulares e não reivindicam cores;
- O deferimento fundou-se na constatação de que entre o sinal registando e as marcas prioritariamente registadas não existem semelhanças gráficas ou fonéticas sus­ceptíveis de gerar risco de confusão ou de associação. Enquanto o sinal registando faz referência a uma torre existente numa freguesia portuguesa, as marcas registadas alu­dem ao nome duma pessoa. Não existe assim o risco de o consumidor mais desatento atribuir a mesma origem empresarial aos produtos que ostentam as marcas supra men­cionadas, nem tão pouco tomar uns pelos outros atendendo a que a visão de conjunto dos sinais é distinta.

O âmbito do recurso define-se pelas conclusões das apelantes (artigo 684º do Código de Processo Civil). No presente recurso há que decidir se há possibilidade de confusão entre a marca registanda “TORRE DE LAPELA” e a marca registada “TOR­RES”.
Dispõe o Código da Propriedade Industrial quanto a marcas no seu artigo 222º:
“1 - A marca pode ser constituída por um sinal ou conjunto de sinais susceptí­veis de representação gráfica, nomeadamente palavras, incluindo nomes de pessoas, desenhos, letras, números, sons, a forma do produto ou da respectiva embalagem, desde que sejam adequados a distinguir os produtos ou serviços de uma empresa dos de outras empresas.
2 - A marca pode, igualmente, ser constituída por frases publicitárias para os produtos ou serviços a que respeitem, desde que possuam carácter distintivo, indepen­dentemente da protecção que lhe seja reconhecida pelos direitos de autor.”
Acrescenta o artigo 223º do mesmo Código na parte que interessa aos autos:
1 - Não satisfazem as condições do artigo anterior:
(…)
c) Os sinais constituídos, exclusivamente, por indicações que possam servir no comércio para designar a espécie, a qualidade, a quantidade, o destino, o valor, a pro­veniência geográfica, a época ou meio de produção do produto ou da prestação do ser­viço, ou outras características dos mesmos;
(….)
2 - Os elementos genéricos referidos nas alíneas a), c) e d) do número anterior que entrem na composição de uma marca não serão considerados de uso exclusivo do requerente, excepto quando, na prática comercial, os sinais tiverem adquirido eficácia distintiva.”
O artigo 245º do mesmo Código define o que se deve entender como imitação ou usurpação de marca, susceptível de levar à recusa de registo duma marca:
“1 - A marca registada considera-se imitada ou usurpada por outra, no todo ou em parte, quando, cumulativamente:
a) A marca registada tiver prioridade;
b) Sejam ambas destinadas a assinalar produtos ou serviços idênticos ou afins;
c) Tenham tal semelhança gráfica, figurativa, fonética ou outra que induza facilmente o consumidor em erro ou confusão, ou que compreenda um risco de associação com marca anteriormente registada, de forma que o consumidor não as possa distinguir senão depois de exame atento ou con­fronto.
2 - Para os efeitos da alínea b) do n.º 1:
a) Produtos e serviços que estejam inseridos na mesma classe da classificação de Nice podem não ser considerados afins;
b) Produtos e serviços que não estejam inseridos na mesma classe da classifi­cação de Nice podem ser considerados afins.
3 - Considera-se imitação ou usurpação parcial de marca o uso de certa deno­minação de fantasia que faça parte de marca alheia anteriormente registada.
Por fim, o conceito de concorrência desleal vem previsto no artigo 317º do Código da Propriedade Industrial:
“1 - Constitui concorrência desleal todo o acto de concorrência contrário às normas e usos honestos de qualquer ramo de actividade económica, nomeadamente:
a) Os actos susceptíveis de criar confusão com a empresa, o estabelecimento, os produtos ou os serviços dos concorrentes, qualquer que seja o meio empregue;
(….)
Vejamos, em primeiro lugar se a marca registanda obedece aos requisitos dos artigos 222º e 223º. Analisando a marca “TORRE DE LAPELA” verificamos que é constituída por sinais susceptíveis de representação gráfica, uma vez que é constituída por palavras e não se encontra qualquer aspecto que a torne inadequada para distinguir os produtos a que se destina. Por outro lado, cremos que se lhe não pode aplicar a excepção da alínea c) do n.º 1 do artigo 223º dado que a referência “de Lapela” não é suficiente para sugerir uma proveniência geográfica. Trata-se da utilização dum nome geográfico mas é óbvio que esse local – Torre da Lapela – não é susceptível de produzir os bens a que se destina a marca. Aliás, atente-se que esta excepção não é absoluta pois da leitura do n.º2 se retira que a única consequência da utilização destes elementos é não se poder considerar estes elementos como de uso exclusivo. Por outras palavras, a utili­zação desta designação apenas poderia prejudicar a requerente do registo da marca uma vez que a expressão “de Lapela” não podia ser considerada de uso exclusivo e a finali­dade da marca é precisamente individualizar e ser exclusiva.
Assente que a expressão “TORRE DE LAPELA” é susceptível de ser usada como marca, vejamos se o seu registo devia ser recusado por poder ser considerada imitação ou usurpação da marca do ora recorrente. Para que se verifique a imitação duma marca é necessário que cumulativamente:
- exista prioridade da marca imitada;
- as marcas se destinem a assinalar a mesma classe de produtos;
- exista entre as marcas semelhança gráfica, figurativa ou fonética susceptível de induzir em erro ou confusão ou de provocar o risco de associação com a marca ante­riormente registada.
Passando ao caso dos autos, não temos dúvidas que se verificam as duas primei­ras condições: a marca da ora recorrente goza de prioridade relativamente à marca registanda e as duas marcas destinam-se a assinalar produtos da mesma classe - bebidas alcoólicas, excepto cerveja. Resta apreciar a eventualidade existência de semelhança entre as marcas. A uma primeira análise, seremos levados a afirmar que não há qualquer susceptibilidade de semelhança. O bónus pater familiae, e é por esta bitola que temos de aferir a possibilidade de semelhança, não consegue encontrar semelhança entre as duas marcas. Uma é constituída por uma palavra com 6 letras e a outra é constituída por 2 palavras com 5 e 6 letras respectivamente unidas por um “de”. Olhando para as marcas dir-se-ia que é impossível confundi-las. De resto esta dissemelhança gráfica prolonga-se nos aspectos figurativos e fonéticos. Uma expressão composta por mais de uma palavra não tem qualquer susceptibilidade de ser confundida com uma outra composta por ape­nas uma palavra. E o facto de esta palavra ser quase igual à primeira palavra da marca registanda não pode causar confusão? Parece-nos evidente que não pois a introdução da expressão “de Lapela” e a passagem da palavra inicial para o singular retira a eventual semelhança entre as marcas: a marca registanda indica uma torre específica – a torre de Lapela – enquanto que a marca da recorrente indica uma universalidade de torres.
Dando como assente que não havia motivos para recusar o registo por não haver qualquer imitação ou usurpação da marca da recorrente, resta-nos saber se há possibili­dade de concorrência desleal. Haveria concorrência desleal se o uso da marca “TORRE DE LAPELA” fosse susceptível de criar confusão com os produtos da recorrente. Já vimos que não há imitação de marca por falta o requisito de possibilidade de confusão ou de indução do consumidor em erro pelo que não encontramos possibilidade de o uso desta nova marca poder ser considerada como concorrência desleal relativamente à recorrente.

Termos em que acordam julgar improcedente a apelação confirmando na íntegra a sentença recorrida.

Custas pela Apelante.

Lisboa, 17 de Fevereiro de 2011

José Albino Caetano Duarte
António Pedro Ferreira de Almeida
Fernando António Silva Santos