Biblioteca DGRSP


EST811
Monografia
7483


DIAS, Ana Rita Conde
Repertórios interpretativos sobre o amor : das narrativas culturais às conjugalidades violentas / Ana Rita Conde Dias.- [Braga] : Universidade do Minho, 2012.- XVIII, 246 ; 30 cm (Digitalizada). - (Estudos)
Tese de Doutoramento em Psicologia, Especialidade de Psicologia da Justiça, pela Universidade do Minho, Escola de Psicologia
(Polic.) : oferta


PSICOLOGIA, DIREITO PENAL, VIOLÊNCIA, VITIMAÇÃO, PREVENÇÃO, VIOLÊNCIA DOMÉSTICA, AFECTIVIDADE, AGRESSOR, AGRESSIVIDADE, TESE DE DOUTORAMENTO, PORTUGAL

No presente estudo, adotando uma perspetiva sociocultural assente nos pressupostos construcionistas sociais, procuramos analisar e compreender o fenómeno do amor, mais precisamente, a sua articulação com as práticas relacionais amorosas, entre as quais, as que se caracterizam pela violência. No percurso teórico que desenvolvemos, encontramos fundamentos que nos permitem sustentar o argumento de que o amor e a violência na intimidade são fenómenos intimamente dependentes das práticas e discursos socioculturais, pelo que defendemos a interligação dos fenómenos e a adoção de uma perspetiva sociocultural na sua análise. No que diz respeito à violência na intimidade, procedeu-se à revisão das teorias e da investigação que integram a dimensão cultural, concluindo-se que há fatores socioculturais que fornecem racionais e justificações para a violência. No que diz respeito ao amor, realizamos uma revisão exaustiva das diferentes abordagens teóricas e estudos sobre o fenómeno, constatando o reconhecimento consensual da existência de variações culturais na experiência do amor e concluindo que esta é constrangida pelos padrões culturais vigentes num dado tempo/espaço, incluindo a experiência “violenta” do fenómeno. Utilizando uma metodologia qualitativa da análise do discurso e recorrendo ao conceito de “repertório interpretativo”, procuramos compreender quais as grelhas interpretativas culturais disponíveis para significar o amor e analisar de que forma essas grelhas/repertórios são apropriadas e transformadas no discurso e nas práticas dos diferentes sujeitos. Mais especificamente, de que forma estas grelhas interpretativas podem influenciar as relações de intimidade e o recurso a práticas violentas ou abusivas. No primeiro estudo empírico analisámos o discurso dos sujeitos sem historial de violência e com diferentes backgrounds geracionais (adultos de diferentes faixas etárias e jovens). Concluiu-se que existe de uma continuidade discursiva transgeracional mas identificaram-se algumas especificidades geracionais, discutidas à luz do contexto sociocultural. No segundo estudo empírico, realizou-se uma análise comparativa entre os sujeitos com historial de violência e os sujeitos sem historial de violência, tanto da população juvenil como da população adulta. Além dos aspetos consensuais, discutem se as especificidades que distinguem os sujeitos com historial de violência dos sujeitos sem historial de violência e, mais especificamente, discutem-se as particularidades que distinguem o discurso dos jovens. No terceiro e no quarto estudo empíricos analisou-se o discurso dos agressores e o discurso das vítimas. No estudo com os agressores, verificou-se que o tema da conflitualidade/violência é central no seu discurso, havendo uma tentativa de integrar na sua história a perpetração de violência contra a parceira. Identificam-se diferenças entre os agressores juvenis e os agressores adultos, bem como diferenças decorrentes da situação relacional dos sujeitos. No estudo desenvolvido com as vítimas, identificaramse tentativas de conciliar a experiência da vitimação com a componente amorosa mas, também, a experiência de perpetração no feminino. Identificaram-se, também, diferenças entre as vítimas jovens e as adultas, bem como algumas especificidades decorrentes da situação relacional das mulheres. Face aos resultados destes dois estudos, são analisados os discursos socioculturais mais alargados sobre o amor e explorados tópicos de intervenção. Reflete-se, ainda, sobre a forma como os discursos do amor constrangem, diferenciadamente, a experiência da vitimação e a experiência da perpetração no feminino. Por fim, na conclusão, debatemos as implicações dos resultados a três níveis: (i) o que traduzem quanto aos processos históricos, sociais e políticos da cultura portuguesa; (ii) as possibilidades que abrem/fecham enquanto recursos culturais para a construção do amor e das práticas/formas relacionais (e em que medida podem constranger/influenciar a vivência de relações violentas, abusivas e assimétricas); e (iii) pistas para a intervenção, preventiva e remediativa, que fornecem, mas sob uma perspetiva cultural.