Biblioteca DGRSP


P.215
Analítico de Periódico



PEDRO, António Francisco Mendes
As relações impessoais dos pacientes dependentes de drogas : uma perspectiva psicossomática - I
Toxicodependências, Lisboa, V.7,n.3(2001), p.3-12


DROGA, IDENTIDADE, DEPENDÊNCIA, PATOLOGIA

Qualquer que seja o seu funcionamento mental e somático à partida, nos estados adictivos graves o sujeito é reduzido a uma identidade de superficie. A clínica mostra que estes pacientes se identificam preferencialmente a um outro que é um modelo pré-existente, e constituem-se projectivamente como complementaridade desse outro, através de procedimentos especificos próprios a uma forma externa da patologia da adaptação. O que subsiste é a relação impessoal, tal como ela é captada pela estética da sociedade tecnológica. Esta forma de relação narcísica é polarizada em torno da questão do rosto. A apropriação do rosto próprio é actualizada do rosto do outro e remete para a experiência primordial. Na situação mais radical o sujeito é reduzido ao absolutamente objecto, restituindo-se como identidade de empréstimo. Esta problemática é a do objecto único que torna o sujeito único e idêntico ao objecto. Finalmente a patologia nos estados aditivos graves define-se como sendo a do circulo vicioso. A actividade onírica quando presente assume a forma do pesadelo repetitivo, deixando perceber que qualquer alternativa que anuncie um conflito psíquico é absoluta, torna o conflito insolúvel. Este impasse apoia-se biologicamente na redução do sono paradoxal pelas drogas e na sua compensação obrigatória na ausência das drogas. Ao mesmo tempo que cessa a sintomatologia psicopatológica franca, surgem as incidências infecciosas múltiplas e cada vez mais graves, próprias à fragilização do sistema imunitário. O modelo psicossomático permite pensar esta complexidade.