EST814 Monografia 7486 | |
GRANGEIA, Helena Maria Fernandes Stalking entre jovens : da sedução ao assédio persistente / Helena Maria Fernandes Grangeia.- [Braga] : Universidade do Minho, 2013.- [?] ; recurso eletrónico, http://hdl.handle.net/1822/24862, acesso restrito. - (Estudos) Tese de Doutoramento em Psicologia, Especialidade de Psicologia da Justiça, pela Universidade do Minho, Escola de Psicologia (Polic.) : oferta PSICOLOGIA, DIREITO PENAL, VIOLÊNCIA, VITIMAÇÃO, ASSÉDIO, STALKING, TESE DE DOUTORAMENTO, PORTUGAL A omnipresença indesejada de outro, a imprevisibilidade e o risco iminente constituem aspetos inerentes à vitimação por stalking. Esta é tipicamente uma experiência com graves implicações no bem-estar físico, psicológico e social das vítimas. No entanto, não é óbvio que esta seja assim entendida, uma vez que o stalking não é ainda amplamente reconhecido em Portugal como uma forma autónoma de violência interpessoal. Partindo desse contexto, um objetivo central deste trabalho consiste em compreender como é que esta conjetura de relativa invisibilidade social do stalking molda as perceções das vítimas, dos stalkers e das audiências. Particularmente procura-se captar e estudar os processos de definição e significação social do stalking e as suas implicações a nível individual. Pretende-se, por último, contribuir para o reconhecimento e o debate informado sobre o stalking em Portugal para que se desenvolvam políticas e práticas efetivas que obstem a manifestação do stalking e garantam respostas proporcionais às necessidades sentidas pelas vítimas. Tais intenções conduziram ao desenvolvimento dos cinco capítulos apresentados – duas revisões teóricas e três estudos empíricos. Estes últimos assentam numa pluralidade metodológica estritamente relacionada com os objetivos específicos de cada um. Assume-se, portanto, o pragmatismo como grelha concetual que advoga uma ligação estreita entre teoria e prática e favorece a multiplicidade metodológica face à abrangência da questão de investigação. Na tentativa de aproximação ao objeto de estudo foram desenvolvidos duas revisões teóricas. A primeira permitiu um mapeamento atualizado do conhecimento científico sobre o stalking no panorama internacional. A discussão teórica que o integra procurou evidenciar pontos de convergência e de descontinuidade entre perspetivas conceptuais e empíricas. Sobressai deste estudo a multiplicidade de definições e perspetivas teóricas, resultante de um objeto de estudo apenas recentemente explorado. Contrastantes com a ambiguidade da sua definição, surgem evidências de uma inquietante prevalência na população em geral e do potencial nocivo que a vitimação por stalking encerra. No segundo trabalho teórico percorreu-se o processo de construção social do stalking, particularmente evidente nos países anglo-saxónicos, desde a sua invisibilidade até ao seu atual estatuto como um problema social e de justiça criminal. Contrapondo com as medidas judiciais e sociais decorrentes do reconhecimento apresentam-se as implicações resultantes da invisibilidade do fenómeno no contexto nacional. São discutidas particularmente as dificuldades ao nível das respostas eficazes dirigidas às vítimas quando a experiência de stalking não é reconhecida autonomamente. Relativamente aos estudos empíricos, numa primeira fase o stalking foi abordado como um possível extremo de uma perseguição relacional indesejada. O objetivo era compreender o processo em que uma rejeição amorosa se poderá transformar numa perseguição com caráter intrusivo. Através de um questionário de autorrelato, especialmente construído para o efeito, foram inquiridos 388 jovens universitários sobre as suas experiências de rejeição amorosa. Os resultados indicaram que a perseguição relacional indesejada é uma experiência muito comum entre os jovens universitários, com caraterísticas que se coadunam com as definições mais conservadoras de stalking. Porém, no que respeita aos comportamentos de stalking, apenas a presença de ameaças claras e violência concreta predizia uma reação negativa do alvo. O género surge como um importante fator diferenciador ao nível das perceções, dado que os homens – quer como alvos, quer como perseguidores – apresentam genericamente versões mais brandas da sua experiência comparativamente às mulheres inquiridas, sugerindo a existência de um padrão duplo de entendimento destas experiências. No segundo estudo, através de um inquérito online, procurou-se aceder à prevalência e às perceções de legitimação associadas à vitimação e perpetração do stalking entre jovens universitários. Das 3367 participações analisadas verificou-se uma prevalência autorrelatada de 34.5% de vitimação e 8.9% de perpetração. Fatores tais como a existência de uma relação íntima prévia entre vítima e stalker, a experiência de medo pela vítima e a coocorrência de ameaças e violência prediziam níveis mais elevados de desaprovação da conduta, tanto nas vítimas como nos stalker. O último estudo procurou compreender as dinâmicas culturais que sustentam o comportamento de stalking. Foram analisados criticamente dois tipos de dados conversacionais: declarações de vítimas de stalking publicadas online e grupos de discussão com jovens estudantes do ensino secundário e universitário. Da análise emergem construções discursivas que apresentam o stalking, por um lado, como uma forma legítima de sedução, especialmente se os stalkers forem do sexo masculino ou, por outro, como uma expressão de uma patologia, particularmente se as stalkers forem mulheres. Estas construções discursivas implicam, por último, a descredibilização das vítimas e a desresponsabilização dos stalkers. |