Biblioteca DGRSP


EST808
Monografia
7472


AZAMBUJA, Mariana Porto Ruwer de
Violência de género e os discursos circulantes nos cuidados de saúde primários / Mariana Porto Ruwer de Azambuja.- [Braga] : Universidade do Minho, 2008.- XXIII, 627 p. ; 30 cm (digitalizada)
Tese de Doutoramento em Psicologia Social, pelo Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho
(Polic.) : oferta


PSICOLOGIA, DIREITO PENAL, VIOLÊNCIA, VIOLÊNCIA DE GÉNERO, SAÚDE, MULHER, DIREITOS HUMANOS, FEMINISMO, TESE DE DOUTORAMENTO, PORTUGAL

O movimento feminista, embora não possa ser compreendido de modo uniforme, representou um importante desafio para a sociedade e para a ciência em particular. Na sua luta política pela igualdade, foi responsável pela denúncia da violência vivida por mulheres no contexto de seus relacionamentos íntimos, conduzindo a integração da temática no campo dos direitos humanos. Mais contemporaneamente, o campo da saúde pública tem vindo a demonstrar atenção para este problema ainda oculto pelas normas sociais que privilegiam a privacidade familiar e que colocam os homens em um estatuto de poder superior sobre as mulheres. As repercussões sobre a saúde física e psicológica das vítimas de maus-tratos têm sido amplamente documentadas em estudos, relatórios, tratados e convenções. As iniciativas de prevenção da violência, ao promoverem a desocultação do fenómeno, têm sido hábeis em aumentar a consciência social sobre o problema e propiciado um aumento no número de casos registados nas entidades policiais, judiciais e instituições de apoio, representando, mais do que um aumento na incidência, uma maior visibilidade do fenómeno. No entanto, muito ainda está por fazer. Tradicionalmente encarado de modo polarizado como um problema de origens socioculturais (consequência do machismo ) ou como uma perturbação individual (como uma patologia, um desvio), o desafio está na integração dos factores socioculturais ao atendimento prestado pelo sector saúde às vítimas de violência conjugal. A saúde, devido à predominância do modelo biomédico, tem apresentado dificuldades em trabalhar com os determinantes sociais , embora já os considere. Em muitos casos, a integração destes aspectos está mais no nível teórico do que das práticas e, ainda assim, com muitas imprecisões e distorções, tal como demonstra o equivocado uso do termo género como sinónimo de sexo em diversas publicações e na formulação de políticas públicas. Os cuidados de saúde primários, por definição, trabalham com uma perspectiva biopsico- social e, deste modo, devem estar preparados para lidar com problemas que vão além da enfermidade orgânica, tal como a violência de género. Neste aspecto, os médicos de família actuantes nos cuidados de saúde primários são importantes actores para despiste e acompanhamento destes casos devido ao contacto directo com todos os membros da família, a continuidade do atendimento prestado e a relação de confiança que estabelecem com seus(uas) utentes. Desta forma, é urgente reflectir sobre o cuidado que tem sido prestado às mulheres vítimas de maus-tratos, em especial no domínio dos cuidados de saúde primários. Inserida no paradigma crítico oferecido pelo construcionismo social, análise de discurso e feminismo, a presente investigação tem como objectivo mapear os discursos circulantes nos cuidados de saúde primários sobre a violência de género e examinar suas consequências para as práticas de cuidado oferecidas às mulheres submetidas à violência conjugal. De modo subjacente, pretende desconstruir estes discursos a fim de construir práticas de cuidado mais sensíveis às especificidades femininas, promovendo um saber mais responsável com a melhoria das condições de vida das mulheres - mas também dos homens, entendendo o género como algo que se faz nas relações interpessoais e reconhecendo que os padrões da masculinidade hegemónica também podem ser opressivos para os homens. Foram realizados três estudos, os quais procuraram mapear as diferentes manifestações do discurso sobre a violência de género. Esta estratégia, longe de buscar a generalização dos dados ou almejar revelar a verdade sobre o fenómeno, relaciona-se à compreensão dos saberes como parciais, limitados e historicamente situados. No Estudo I (Investigações sobre mulheres e violência em Portugal), fazemos um levantamento dos trabalhos de mestrado e doutoramento realizados nas universidades portuguesas sobre mulheres e violência. Os resultados indicam que ainda este é um tema recente e em expansão. No estudo II (Revistas médicas: a invisibilidade da violência de género em publicações nacionais), procedemos à análise crítica do discurso veiculado na Revista Portuguesa de Clínica Geral e na Revista Portuguesa de Saúde Pública, concluindo-se que a violência doméstica contra as mulheres não tem sido consistentemente discutida, pensada e pesquisada no campo da saúde portuguesa, tendo como efeitos a invisibilidade de um grave problema de saúde pública e a adopção de práticas individualizantes e pouco efectivas. No Estudo III (Discurso de Médicos de Família actuantes nos Cuidados de Saúde Primários), foram entrevistados 11 profissionais actuantes no município de Braga. Os resultados confirmam os achados dos estudos anteriores, demonstrando a necessidade de incorporar novos saberes às práticas destes profissionais.