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CUNHA, Olga Cecília Soares da Perpetradores de violência em relações de intimidade : da caracterização à intervenção / Olga Cecília Soares da Cunha.- [Braga] : Universidade do Minho, 2014.- 1 tese ; Recurso electrónico, http://hdl.handle.net/1822/34474, acesso restrito. - (Estudos) Tese de Doutoramento em Psicologia, Especialidade de Psicologia da Justiça, pela Universidade do Minho, Escola de Psicologia (Polic.) : oferta PSICOLOGIA, VIOLÊNCIA, COMPORTAMENTO VIOLENTO, PSICOPATOLOGIA, AGRESSIVIDADE, CRIME, VITIMAÇÃO, REABILITAÇÃO, TESE DE DOUTORAMENTO, PORTUGAL A violência em relações de intimidade tem suscitado, nas últimas décadas, um enorme interesse por parte da comunidade científica. Atualmente, o conhecimento em torno deste fenómeno é já extenso, sendo possível identificar inúmeros estudos centrados nesta temática. Apesar da vasta atenção que a violência na intimidade tem merecido, no contexto nacional o estudo do perpetrador mantem-se ainda muito incipiente. De facto, a revisão da literatura nacional revela-nos que o interesse científico no perpetrador de violência em relações íntimas surgiu bastante mais tardiamente, sendo a nossa produção científica parca e restrita a pequenos grupos de trabalho. Estas lacunas foram percetíveis não só ao nível da sua caracterização como também no que respeita à sua reabilitação. Atendendo a estas lacunas, neste trabalho procurou-se caracterizar o perpetrador de violência em relações de intimidade, ao nível dos comportamentos violentos perpetrados (dentro e fora da relação íntima), da personalidade, psicopatologia e agressividade. Em paralelo, interessou-nos compreender quais os fatores preditores quer da frequência quer da severidade da violência. Foi, ainda, nosso propósito construir, implementar e avaliar a eficácia de um programa de intervenção para perpetradores de violência na intimidade em contexto prisional e ambulatório. Por fim, procurou-se compreender e refletir sobre a experiência subjetiva dos perpetradores acerca da intervenção, bem como conhecer e descrever o processo de construção da mudança. No primeiro estudo foram avaliados 187 indivíduos condenados e/ou sinalizados pela prática de crimes contra uma parceira ou ex-parceira íntima, 76 na comunidade e 111 em estabelecimento prisional. Da análise resultou que cerca de metade dos indivíduos apresentava consumos excessivos de álcool, experiencias de vitimização e exposição a violência interparental na infância e adolescência. Cerca de um quarto evidenciou sintomas psicopatológicos e menos de um quinto evidenciou traços de agressividade. Os comportamentos mais frequentes foram os denominados de “violência menor” (e.g. insultos, bofetadas) e a maioria dos sujeitos dirigiu a sua violência maioritariamente à parceira, sendo que apenas um terço destes se envolveu em atos de violência extrafamiliar. Os dados permitiram ainda identificar dois subgrupos: perpetradores institucionalizados e perpetradores na comunidade; e perpetradores de violência severa e perpetradores de violência menos severa. Estes grupos distinguiram-se essencialmente ao nível da violência perpetrada, sendo os perpetradores institucionalizados e os perpetradores de violência menos severa os que evidenciaram mais comportamentos de violência familiar e extrafamiliar. Por último, verificou-se que a violência íntima anterior, o uso de objetos, os traços de psicopatia do perpetrador e o nível socioeconómico baixo surgiram como importantes preditores da frequência da violência; e a separação, o uso de armas e o estatuto socioeconómico elevado apresentam-se como preditores da severidade da violência. No segundo e terceiros estudos construiu-se, implementou-se e avaliou-se a eficácia de um programa de intervenção com perpetradores de violência na intimidade. No programa participaram 21 indivíduos da comunidade e 7 institucionalizados, tendo-o finalizado com sucesso 16 indivíduos da comunidade e 4 institucionalizados. No grupo comunitário, verificaram-se reduções significativas no risco de violência conjugal, na violência física e psicológica, nas atitudes legitimadoras da violência conjugal, na agressividade e na sintomatologia psicopatológica. Ademais, observou-se um incremento significativo na autoestima, autoconceito e resolução de problemas. As mudanças foram mantidas no período de follow-up a 6 meses. Quando comparados com os indivíduos do grupo de comparação os resultados do grupo comunitário revelaram-se significativamente superiores. Por seu turno, os participantes do grupo institucionalizado não revelaram mudanças significativas. No último estudo, que consistiu na análise de entrevistas realizadas aos 16 indivíduos da comunidade que concluíram com sucesso o programa de intervenção, procurou-se aprofundar o conhecimento sobre os significados decorrentes da experiência de participação em intervenção e compreender o processo de mudança. Através da Grounded Analysis, emergiram três categorias centrais das narrativas dos participantes: (1) experiência em intervenção psicoterapêutica (expectativas pré-intervenção e reflexões sobre o processo psicoterapêutico); (2) mudanças em intervenção psicoterapêutica (reflexões acerca das mudanças, emergência de novas competências e desempenhos alternativos ao problema, reconhecimento de vulnerabilidades individuais após intervenção); e (3) facilitadores da mudança (grupo como suporte à mudança, intervenção/aprendizagens adquiridas, investimento individual, outros significativos, mudanças da companheira e figura do facilitador/dinamizador). Partindo de uma análise integrativa destes dados, desenvolvemos um modelo teórico com vista a aprofundar o conhecimento acerca do processo de mudança em indivíduos submetidos a intervenção direcionada para a problemática da violência íntima. A presente dissertação reflete a natureza complexa e multideterminada da violência em relações de intimidade, bem como a premência e necessidade de atuação junto do perpetrador de violência, sendo discutidas no final deste trabalho algumas das implicações para a prática profissional e empírica decorrentes dos resultados obtidos. |